Davi de Jesus
do Nascimento

singra

Mergulhe
A proposta

no concorrer de quatro sóis seguidos, construímos um barco à vela para singrar o jejum de meu pai das águas com vento. desembrulhamos de dentro do coité torado de nosso quintal o desejo-desenho de fincar vela e escolher um tiquim de rio para velejar. perto mesmo donde com poucos passos sentimos o cheiro da cozinha de casa brigando com as panelas e a ponta da vela abre tantencima quantembaixo. para remolhar o fôlego seco e abafado da calafetagem do corpo-embarcação, a água áspera de meu pai encharca raso o teto da pedra quando estia. quando a gente desenha junto ele assina rio canoa. e enquanto ele serra, eu serragem ou carranca pulva xibunga.

Ficha técnica
butuca (foto e vídeo)

caio esgario

marcenaria, desenho e feitura do barco, vela e singra

david nascimento

ajudante de marcenaria

davi de jesus do nascimento

pôr do barco n’água

moranga

Artista

quando nasci alevim, em 1997, no fulgor norte-mineiro, banharam-me com o mesmo nome de meu pai, Davi de Jesus do Nascimento. sou barranqueiro curimatá, arrimo de muvuca e escritor fiado. gerado às margens do Rio São Francisco – curso d’água de minha vida – trabalho coletando afetos da ancestralidade ribeirinha e percebendo “quase-rios’’, no árido. fui criado dentro do emboloso da cumbuca de carranqueiros, pescadores e lavadeiras. o peso de carregar o rio nas costas bebe da nascente dos primeiros sóis que chorei na vida. sustentar na cacunda a carranca tem feito eu sentir a força do vento de minha taboca envergada no seguimento da rabiola solta que desceu em espiral gongo caracol envoltório para o calcanhar direito como cobra, isca, peixe e pedra.